Roleta da Transgressão - Livro
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R. da Transgressão

Um Pungimento ao Eu

TRIIII...* – Meus pensamentos cessam pelo som irritante do alarme que era um bramido para os ouvidos, acompanhado pelos passos apressados surgindo em paralelo as conversas ecoadas no ambiente. Eu, como sempre, estava buscando forças para me levantar e encarar aquele lugar.

Não, não se engane leitor! Eu não estou falando da escola, por mais que, ela também não era o melhor ambiente para mim. Mas aquele lugar... aquele específico lugar. É como se eu tivesse andando, vendo todos os meus pecados sendo transparentes igual vidros e estivesse para todos verem, para desfrutar, e caçoar de cada flagelo meu.

"Há livros que escolhem seus leitores, assim como há leitores que são escolhidos pelos livros. A conexão é imediata, inevitável, como se as páginas reconhecessem as mãos que as tocam."
Olhares

O Reduto da Colônia.

Olho em volta.. percebo que a sala ficara vazia enquanto me perdia neste meu receio, praticamente um aviso para minha ida. Por mais desconfortante que seja uma sala vazia, é sempre mais agradável sair quando todos já foram, sem ninguém pra te empurrar ou ver. Enfim sigo em direção a minha casa.

No caminho, á noite, a cada passo no silencioso, que só acompanhava as cigarras a cantar, ela se aproximava, cada passo, era uma angústia, cada vez mais perto... Um dos "privilégios" de estudar de tarde é que não tem ninguém nas ruas para ver.

Eu queria, de verdade, que existisse algum atalho até minha casa em que eu pudesse evitar encarar aquilo em toda ida e volta. Inevitavelmente eu chego até o temido lugar no caminho de casa: um parquinho.

Eu sei caro leitor, parece piada, o que há de errado em um parquinho? Você deve se questionar, mas sendo bem sincero, eu tenho meus motivos para eu odiar estar neste lugar.

-Estou aqui novamente – pensei alto com certo desânimo e arrependimento, o parque era o lugar que eu mais passava tempo depois da escola e em casa. Atualmente eu sequer consigo olhar pra ele. Esse lugar é como olhar o passado, aqui esteve toda as pessoas que eu conheco ou já conheci, e as... que gostaria de continuar a conhecer.

-É. Seria bom ir para casa – disse com uma certa angústia.

De repente, uma sensação conflituosa se formou dentro de mim. Por que estou tão angustiado? Isso foi a tanto tempo, eu não deveria estar tão mal assim.

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Roleta da T.

O momento em que o tempo desvelou seu verdadeiro rosto

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Sinceramente, não faço ideia do que fez alguém como eu pisar ali novamente, talvez fosse vergonha e quisesse uma auto aprovação ou será que era um sentimento de curiosidade e de querer por um fim naquilo? Mas acredito que na realidade senhor ou senhora, era apenas saudades.

Ah saudade! Própria do português e intraduzível para outras línguas. Amargo ou doce, lembrança nostálgica ou melancólica de algo que aqui jaz, sentimento rancoroso, não concorda? Miserável galego que preconizou tal sentir maquiavélico, que marca a alma e adoece.

O tempo não é uma linha reta que percorremos, mas um oceano no qual nadamos. Podemos mergulhar em suas profundezas, surfar em suas ondas, ou simplesmente flutuar à deriva. A escolha é sempre nossa, embora raramente percebamos que a temos.

Entro no parquinho, e olhando de perto, não tá tão acabado assim, apesar que é justificável, quase nenhuma criança brinca nesse parque mais. A maioria dos brinquedos estavam em estado degradado: escorregador, que tinha partes com ferrugem, uma caminhonete de madeira que, a sua pintura estava toda desbotada, mas, me trás lembranças agradáveis de subir em cima dele e dizer a todos "EU SOU O REI DO CARRO" com uma risada açucarada, e vibrante que, a amargura que é crescer, tirou de mim. Porém, só um me atraia atenção, o gira-gira. Já tentei por a culpa de tudo que houve nesse simples brinquedo para entreter crianças, mas notei que era tão idiota quanto parecia ser.

Um lugar que fora feliz

Já foi bom

Se me recordo, eu dei o nome de "roleta" pra ele, por conta dos programas de televisão que eu assistia na época, aquilo me lembrava a tal roleta que via neles. Implicava toda hora com meus amigos, insistia que era roleta mesmo quando o dono do local dizia que era gira-gira.

Penso que se eu tivesse metade do ânimo que tinha numa discussão boba, ganharia uma maratona.

Subo em um dos bancos do gira-gira, ou "roleta", e bom... digamos que sentar em um brinquedo de criança quando se é grande fica bem desconfortável, na realidade, é como se tivesse 3 pessoas pra ocupar o espaço de uma, pensando bem.. até que é coerente.

Eu decidi consultar o horário, e para infelicidade de alguns, eu só estava há 3 minutos atrasado, há!

Caro leitor, eu sei, parece eternidades quando ditas, contudo, meu passado e meu presente decidiu desfrutar da oportunidade e fazer algo inesperado, girar a roleta e descobrir o que cairá para mim.

Tento dar um primeiro impulso com os pés, só que meu peso comparado com o brinquedo dificulta, até que milagrosamente dei uma volta completa no sentido anti-horário, e como um pensamento intrusivo essa música veio a tocar:

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